Não tenho uma só palavra em defesa de Nicolás Maduro, mas tenho muitas em defesa da soberania e da autodeterminação dos povos, da solução não violenta de conflitos, da paz entre nações.
Em 28 de junho de 1914, o sérvio Gabrilo Princip assassinou o Arquiduque Franz Ferdinand numa esquina de Sarajevo. O tiro desencadeou uma reação em cadeia que resultou na Primeira Grande Guerra. Ela durou quatro anos e matou milhões de pessoas.

Fernand estava neste carro, nesta esquina, quando foi alvejado pelo sérvio Gabrilo Princip
O tiro que matou o Arquiduque não foi a causa da guerra, foi apenas o seu gatilho. As causas eram mais profundas e já estavam fervendo num caldeirão onde haviam se misturado militarismo, imperialismo e governos autoritários numa Europa conturbada e assolada por problemas econômicos.
A segunda guerra não foi diferente. A Alemanha, reduzida a uma pobreza abjeta em consequência da Primeira Guerra, levou ao poder um espertalhão chamado Hitler. Ele sabia manipular a insatisfação do povo. Jogou a culpa da situação da Alemanha nos judeus, nos ciganos, nos comunistas e nos homossexuais. Portanto, a salvação do país passava pela extinção destas pessoas.
A estes inimigos declarados, Hitler juntou seu conceito de espaço vital (Lebensraum). Em termos simples, este conceito justificaria a agressão da Alemanha contra os países vizinhos, especialmente do Leste Europeu, para lhes tomar as terras, as culturas, os minerais. Enfim, todas as suas riquezas. De quebra, os povos daqueles países deveriam se submeter às forças alemãs, ou seriam eliminados.
Deu no que deu: a destruição completa da Europa.
Cocaína ou Petróleo?
Recentemente, Trump vinha alegando que precisava atacar a Venezuela para combater o narcotráfico. Que isto é mentira deslavada, todo mundo sabe. Afinal, os Estados Unidos sempre foram aliados de grandes traficantes. Um exemplo disto é o perdão que Trump concedeu ao maior traficante já condenado e preso nos Estados Unidos, o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández. Ele cumpria pena de 45 anos de prisão, mas foi perdoado e libertado.
Claro que, se Trump acreditasse em combater o narcotráfico, ele nunca teria mando soltar este traficante.
Além disso, a Venezuela não é produtor significativo de Cocaína ou qualquer outra droga. Ela é, no máximo, local de passagem, o que acontece com todos os países costeiros que têm movimentação de navios.
Portanto, cai por terra a justificativa de que se trata de combate a traficantes. Os interesses de Trump são outros: criar inimigos externos e obter petróleo a preço baixo.
Venezuela e o petróleo
A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Muito mais do que os países árabes. Seus poços estão mais perto dos Estados Unidos. Portanto, têm custos logísticos menores do que o custo do petróleo do Oriente.
Este é verdadeiro interesse de Trump.
Ditaduras?
Não se pode dizer que o governo da Venezuela é democrático. Mas, Trump não pode alegar isto para justificar sua agressão. Por quê? Ora, os Estados Unidos sempre apoiaram ditaduras. Apoiaram no passado e apoiam no presente. Mais do que isto: Muitas ditaduras só se tornaram possíveis devido ao apoio dos Estados Unidos.
Mas, não vamos longe: a Arábia Saudita é uma monarquia absolutista em que o monarca tem poder total sobre a vida e a morte. O rei atual, Mohammed bin Salman, controlou o poder matando seus parentes e patrícios que tinham influência política. Seu ato de violência mais conhecido foi o assassinato do jornalista do Washington Post, Jamal khashoggi.
Apesar do seu histórico, as portas da Casa Branca estão sempre abertas para bin Salman.
Portanto, não se trata de combater ditaduras, como Trump algumas vezes diz.
Petróleo, Petróleo, Petróleo
O ataque que Trump desfechou hoje contra a Venezuela tem um único objetivo: colocar no poder um governo fantoche, um mamulengo que permita aos Estados Unidos pegar o petróleo a preços aviltados. De bônus, ele ganhará o poder de influenciar nos preços globais do óleo, e reduzirá a capacidade que a OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo) hoje tem de ajustar os preços dos combustíveis fósseis,
As Guerras de Arco e Flecha - última guerra
Ao ser perguntado como seria a terceira guerra mundial, Einstein teria respondido que, quanto à terceira, ele nada sabia, mas que a quarta seria guerreada com arco e flecha. Ou seja, uma terceira guerra mundial não acabará com países, acabará com a humanidade.
O cenário está posto: Trump quer a Venezuela e a América Latina sob seu controle. Ele não se importa de entregar a Europa aos russos e a Ásia aos chineses, desde que eles lhe deem liberdade para fazer o que quiser nas Américas.
Vamos torcer para que as agressões parem na violência que aconteceu hoje. A América Latina não pode voltar a ser o quintal dos Estados Unidos. Muito menos, pode se transformar num cenário de guerra por procuração em que os Estados Unidos estão de um lado, e Rússia e China estão do outro.
Se isto acontecer, o mundo perderá muito, e nós, latino-americanos, perderemos tudo.
Sabemos como as guerras começam, mas nunca sabemos como terminam. Esperamos que esta seja apenas mais uma triste escaramuça, e não o início da terceira e última guerra mundial.