Alerta

FEBEABD, ou FEDEABOM?

O Festival de Besteiras que Assola Nosso Legislativo

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 17/11/2025 04:17
FEBEABD, ou FEDEABOM?
Na Câmara, o que dá para rir, dá para chorar. Depende do seu espírito: se quer o bem de Bom Despacho, é caso de choro; se quer se divertir com a vergonha alheia, é caso de rir.

Stanislaw Ponte Preta foi um jornalista carioca que se divertia com as besteiras ditas pelos políticos. Morreu jovem, e os políticos ficaram em paz. Os políticos não têm saudade dele; nós temos.

Ele resumiu as papagaiadas dos políticos do Rio num imaginário tema para as escolas de samba. Aí nasceu o Samba do Crioulo Doido, que começa assim:

Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina
Arresolveu se casar
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar Com Tiradentes …

 Mas, os maiores registros do besteirol ficaram no seu livro FEBEAPÁ — Festival de Besteiras que Assola o País. Aliás, publicado em mais de um volume, porque tanta asneira não cabia num livro só.

O FEBEAPÁ não é estranho a Bom Despacho, mas, de vez em quando, a coisa degringola e extrapola qualquer pessimismo. É o que tem acontecido com a atual Câmara Municipal. Parece que toda segunda-feira, dia de reunião, é uma apresentação ao vivo do FEBEAPÁ. Como este projeto de lei apresentado pelos vereadores Maique, João da Lotação e Eduardo Estrutura. Diz o projeto (resumido, para não cansar o leitor):

Art. 1º Fica vedada a comemoração do Halloween, pois tais práticas:

1 — Contribuem para a adultização das crianças;

I — Sexualizam as crianças;

III — Geram medo, ansiedade e insegurança nas crianças;

IV — Expões as crianças à aproximação de pessoas mal-intencionadas.

Nunca gostei, nunca participei e nunca promovi a festa do Halloween. Mas, também nunca vi nenhum destes males e riscos terríveis na festa. A comemoração existe, comprovadamente, há pelo menos 2500 anos. Ou seja, desde o tempo dos druidas, os sacerdotes celtas. Com a chegada dos romanos e sua cristianização, os celtas também foram cristianizados. A igreja católica transformou a festa primitiva do samhain em Halloween.

O samhain celebrava o fim das colheitas e a aproximação do inverno. Os cristãos a renomearam para Halloween, para celebrar a véspera do Dia de Todos os Santos.

Exatamente! Halloween é a forma abreviada da expressão inglesa All Hallows Eve. Ou seja, é simplesmente a véspera do Dia de Todos os Santos. Para quem quiser conferir: all é todos; hallows é santos; eve é véspera.

Os católicos irlandeses levaram esta celebração para os Estados Unidos. Lá, ela foi adotada pelos evangélicos e espalhou-se pelo país. Como os Estados Unidos se tornaram dominantes no mundo, outros países começaram a copiá-los. Assim, o halloween chegou ao Brasil e passou a ser chamado de Dia das Bruxas. Mais recentemente, o nome em inglês se tornou mais conhecido. De novo, devido aos interesses comerciais que querem vender fantasias e penduricalhos.

Doces ou Travessuras

A tradição do trick or treat (travessura ou doce) nasceu na Inglaterra e foi adotada nos Estados Unidos, como parte  Halloween. Mas, o hábito coincide com um costume cristão de muitos séculos, como o Pão de Deus, ou Pão-por-Deus, que existe em Portugal desde a época em que o Brasil foi descoberto. Hábito que tomou força após o terremoto de Lisboa, acontecido no dia 1º de novembro de 1755 – Dia de Todos os Santos.

Os portugueses, que já tinham a tradição do Pão de Deus, voltaram a adotá-la com vigor, a partir de 1º de novembro de 1756. Ou seja, no aniversário de um ano do grande terremoto. Era um ato de caridade com os pobres e de agradecimento pela salvação. Compreensível, pois dos 300 mil habitantes que Lisboa tinha na época, cerca de 100 mil morreram. Uma coisa assustadora.

Assim, a tradição do samhain celta se misturou com a festa cristã do dia dos mortos. Muitos portugueses que chegavam ao Brasil depois da descoberta, já traziam a tradição do Pão de Deus. Os açorianos que aportaram em Florianópolis reforçaram a tradição.

Portanto, as tradições do “Doces ou Travessuras” e do “Pão de Deus” chegaram ao Brasil de duas fontes, em períodos de diferentes. Primeiro, vindo de Portugal, com início há 500 anos, posteriormente reforçado pela chegada dos açorianos a Florianópolis. Muito mais tarde, vindo dos Estados Unidos, robustecendo a tradição que já existia.

Contudo, podemos especular que a prática tenha a mesma origem: os romanos. Eles cultuavam os deuses lares, ou seja, deuses que protegiam a família e a casa. Os romanos agradeciam a proteção deles com libações, oferendas e orações. Como os romanos dominaram a Inglaterra (origem do Halloween) e a península Ibérica (origem do Pão-por-Deus), pode ser que aí exista uma raiz comum às duas tradições.

História, Tradição e Religiosidade

Os agentes públicos têm o dever de respeitar a história, as tradições e a religiosidade do nosso povo. Em vez disto, os vereadores que propuseram esta lei, não só mostraram enorme ignorância sobre nossa cultura e nosso, mas também desrespeito pelas crenças e folguedos populares.

Já por isto, este projeto merece nosso repúdio. Mas, há outros motivos. Esta mesma Câmara está analisando um projeto de lei que cria o Dia do Legendário, uma verdadeira operação caça-níquel, com aberrante conotação religiosa.

Ponte Preta está morto, mas o FEBEAPÁ segue a todo vapor.

Veja também: Quem São os Legendários de Bom Despacho?

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